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Cantiga para um amigo distante (ou seria um blues?)

Por Abílio Dantas

Tenho um amigo que sempre me convence de que ainda é possível contar histórias diferentes e mover a cabeça num ritmo que não seja o do abrir e fechar das telas dos computadores portáteis e dos passos monocromáticos que nos levam sempre aos mesmos lugares todos os dias e pegando os mesmos ônibus em que o cobrador nos olha, mas não nos vê. Faz tempo que não vejo esse meu amigo desde que ele viajou com a namorada para São Miguel do Guamá entregar a carta de uma avó falecida para um tio foragido da polícia. A última vez que falamos foi pelo telefone. Ele disse que estava bem e muito feliz pelo do Dia dos Namorados, pois passou o dia inteiro num motel com sua menina bebendo uma garrafa de vinho e uma garrafa de vodka e fumando cigarros americanos novos encontrados no vão de um banco da rodoviária e tudo estava tão bom que se esqueceram de foder. Ele ria bastante e eu quase chorava de rir. Meu amigo tem um jeito fantástico de contar suas histórias. Suas rugas precoces localizadas no canto dos olhos se esticam quando sorri como um fio de chiclete ou um barbante, um varal infinito. E ele vive sempre as coisas que conta como um sanfoneiro nordestino sem sanfona e sem rima. O conheci no ano de 2005 à beira de uma piscina enquanto falava de livros que nunca leu. Discutimos Marx sem termos lido. Soube na hora que éramos irmãos. Um grande mentiroso sempre reconhece outro e é difícil conter a felicidade. A mentira nos une de um jeito leve e inocente apesar de sabermos também fazer silêncio quando sabemos que um dos dois fugiu à regra e contou verdades como no dia em que me contou que tem um filho ou uma filha com uma moça que foi empregada doméstica em sua casa. Ficou surpreso quando viu o menino, mas foi embora como entrou: as mãos nos bolsos, sem um tostão, e a dor de cabeça terrível bem na esquina do crânio. Foi esse meu amigo que me mostrou a beleza do barulho das noites na ciclovia da Almirante Barroso e que correu comigo na madrugada com medo de sermos confundidos com meninos que quebravam os carros estacionados na Angustura. Foi ele que bebeu uma garrafa de plástico com Fanta Laranja e cachaça ao mesmo tempo em que colocava cinzas no mesmo gargalo. Sinto falta dos elogios que faz a mim e da crença na amizade como um viciado. Acho que é uma das poucas coisas em que ainda acredita, além do Rolling Stones e do pequeno quadro em preto e branco da Elis Regina na parede de sua casa, é claro. Também ama as mulheres. Têm poemas belos.

Abra os olhos e veja
Homens de quatro na rua
E cães bebendo cerveja.

Espero que esteja bem e traga uma lembrança pra mim de São Miguel. Seu nome é Daniel, mas o chamam de Paco. Mande lembranças quando puder, filho da puta.

Blackbird Fly

Por Murilo Rodrigues

Foram 12 dias fora de casa. Ao retornar, algo me parecia estranho nas feições de meus pais e irmã. Mostravam-se felizes com meu retorno, porém com sorrisos nem tão largos e amistosos assim.
O silêncio na casa era assombroso. Aquele latido grave, distante, fraco e agonizante que meu cachorro ladrava ultimamente, devido a uma doença indiagnosticável e conseqüentemente incurável, me veio à mente. Algo me tranqüilizava. Meu coração acalantava como algo que havia se resolvido, ainda que de maneira dolorosa.
Eu ainda milhas distante, e meu pai autorizara eutanásia em meu cachorro que há meses vomitara tudo que ingeria e começara a desenvolver chagas em seu corpo, que ensangüentavam-no, fazendo-no uivar dor e aflição ao longo de dias, que se estenderam por semanas, meses...
Juno, um pastor belga de médio porte, falecera aos 13 anos, no dia 21 de novembro de 2007, com uma injeção letal, que paralisaria seus órgãos lhe causando uma parada cardíaca fulminante. Automaticamente o sofrimento daquele cão, que seria completamente negro se não fosse um tufo branco no peito, sucumbia, e finalmente tinha paz novamente, voltava ao mundo das idéias.
Sentado em meu quarto tocando Black Bird, canção dos Beatles, que ele mais gostava de me ouvir tocar, pensei em homenageá-lo enquanto lágrimas lavavam meu rosto vermelho, trêmulo e salgado, reflexos de uma perda natural, e esperada. Porém, sofrível.
A imagem daquele cachorro que fora um dia cheio de vida, amigo e brincalhão não me saía da mente. Via-lhe nas cenas mais peculiares, se soltando, correndo pela casa, pela rua, virando sua vasilha de comida, quebrando vasos e defecando em lugares impróprios... transgredindo sempre.
Uma homenagem ainda lhe resta, fazer-lhe seu vulto negro e aderindo seus pertences em 3 cenas costumeiras, dando o ar cômico e indisciplinado que ele nunca deixou de ter, porém evidenciando que dessa vez ele estará finalmente livre das amarras que o condenaram a sofrer antes de partir, estava livre para voar ao infinito, dessa vez uma ida sem volta, sem culpa, sem medo, sem vômitos... Só a música o faz voltar pra casa...
“Black bird fly...”